Não esperei que ninguém me acordasse pela manhã. Levantei logo cedo, não queria perder tempo. Queria terminar tudo antes do jantar na casa do Liam. Escrevi em uma folha branca com letras bem grandes: "NÃO ME PERTUBEM!" e colei do lado de fora da porta do meu quarto e me tranquei por lá. Desliguei meu celular, deliguei a televisão, desliguei tudo o que poderia me distrair. Continuei de pijama, não podia perder meu tempo trocando de roupa. Peguei todos os cadernos e livros de que eu precisava e liguei o computador, para ter uma base de pesquisa e de respostas para qualquer dúvida que eu tivesse. Peguei um grande estoque de comida na cozinha, já que passaria as próximas 18h do meu dia trabalhando pesado. Liguei para Megan e pedi para que ela fosse até a escola e pegasse novos frascos das substâncias que eu havia derramado no antigo projeto. Megan era filha da diretora, não seria problema nenhum se ela fizesse isso por mim.
[...]
Refiz todos os gráficos, anagramas, textos e ilustrações, um por um. Testei todas as experiências e ainda criei um modo simples de explicar e mostrar como nossa tese funcionava. Estava tudo ficando como planejado... Eu finalmente estava conseguindo! Ainda faltava muita coisa, mas o pouco que já tinha, me deixava bem mais tranquila. Todos os testes químicos foram realizados no porão, para não acontecer qualquer tipo de tragédia de novo... Eu finalmente tinha aprendido a lição. Continuei a escrever e assim fiquei por horas e horas. Às vezes fazia uma pausa para comer e para ir ao banheiro, mas apenas para isso. Fiquei horas na mesma posição, meus joelhos já estavam latejando de dor. Deitei, com o caderno e o livro de Química de um lado e o computador no colo, e continuei a copiar e escrever todos aqueles elementos da tabela periódica. Um saco, digamos, mas era necessário. Eu já tinha perdido a conta de quantos rins eu já havia desenhado naquele dia... Um rim saudável, um rim enfraquecido, um rim doente, um rim em decomposição... Vários tipos e estágios de doenças nos rins que se possa imaginar. Acho que qualquer paciente que tem que fazer emodiálise todos os dias, ficaria desanimado ao ver tudo aquilo. Eu estava impressionada com os resultados dos meus desenhos, tinham ficado realmente bons! Estranhos, no mínimo, mas bons. Faltavam poucas coisas, quando vejo um bilhete passando por debaixo da minha porta: "Estamos indo para a casa do Liam, s/n. Se você puder, passe lá. Boa sorte com isso tudo... Te amo filha. xx". Pois é, eu havia me esquecido desse detalhe. Terminei tudo, aliviada, orgulhosa e muito feliz. Estava ansiosa para dizer para Liam que tinha conseguido recuperar tudo e que nosso sonho ainda tinha chance de se tornar realidade. Escolhi uma roupa bonitinha no armário, me maquiei para aparecer menos cansada e fui para a casa de Liam, levando o relatório do projeto para mostrar para ele.
[...]
Toquei a campainha e esperei alguém atender. Karen, a mãe de Liam, atendeu a porta sorridente. Sempre simpática e atenciosa comigo.
- S/n! Achei que não viesse mais!
- Desculpe o atraso, estava terminando algumas coisas em casa...
- Tudo bem, minha linda. Entre, fique a vontade!
- Obrigada, dona Karen. Com licença...
- Nós já jantamos, mas ainda tem bastante comida, se quiser...
- Não, não... Agradeço, mas já comi em casa. - sorri. - O Liam está?
- Estão todos lá na sala... Vamos?
- Ah sim, claro... - sorri e a acompanhei até a sala. Cumprimentei Geoff, pai de Liam, Nicola e Ruth e minha família. Apenas sorri para Liam, que não parecia estar muito animado. Todos estavam conversando animadamente na sala, quando Liam se levanta e vai até a cozinha, sem avisar a ninguém. O segui, queria conversar com ele e compartilhar minha alegria. -
- Oi Liam! - sorri. -
- Oi s/n...
- Quero que você se orgulhe de mim, porque passei as últimas 18h refazendo tudo o que eu acidentalmente estraguei. E olha só: fui conferir o resultado das nossas experiências e deu tudo certo, como queríamos. - disse animada, não podendo conter minha alegria. -
- Que bom...
- "Que bom"? Só isso? - fiquei surpresa, esperava mais da parte de Liam. -
- Queria que eu pulasse de alegria, te parabenizando por algo que era sua obrigação fazer? Então, parabéns s/n, você conseguiu!
- Nossa... Obrigada... - disse, saindo da cozinha. Era inacreditável o que acabara de acontecer... Que reação foi essa? Ele simplesmente agiu como um idiota e ignorou totalmente o que eu havia feito. Estava decepcionada. Passei o resto da noite sem trocar nenhuma palavra com Liam e fui para casa sem ao menos me despedir. Só iria falar com ele na hora da nossa apresentação, apenas sobre o trabalho e nada mais. Eu hein... Nunca esperaria isso dele. Não mesmo.


